sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

IV Campos Metal Fest

                                    A Mad Tea-Party


   Quem se lembra do célebre texto de Dickens em "Um Conto de Duas Cidades" que entre outros, citava "...foi o melhor dos tempos, foi o pior dos tempos;...". Pois bem, essa noite de 19 de janeiro , em Campos do Jordão plasmou a primeira frase enquanto eu vivia os dias da segunda metade.  

                   Mas essas são lagrimas para outra postagem.
                   Em meio ao caos, eu tive o privilégio de estar ao lado de minha alma nesse festival que talvez, e só talvez, tenha tirado alguns centímetros de altura de algumas montanhas ao redor do local da gig.  
                   Minha filha já tivera sua primeira experiencia , mas era um fest aberto.                                               Não sabíamos como seria a reação dentro do espaço confinado regado a brutal, death, grind , thrash e afins.
                    Mas por sua  reação relaxada na entrada do local, em meio aquela famosa concentração de espera, eu previ que seria , no minimo, uma noite para esquecermos o mundo lá fora e simplesmente curtir.
                    E foi isso o que aconteceu.


                                        Relaxando antes de distribuir pedradas, bandas e bangers se misturaram enquanto os portões não abriam.




                  O inicio de um livro empolgante é sempre recheado de uma arritmia gostosa no peito, geralmente sem se importar em saber como de fato a obra irá terminar. 

                   Sabe qual é a sensação de olhar para seu filho e imaginar que se não fosse seu, você adoraria que fosse, ou gostaria de que seu filho fosse assim? Já teve essa sensação?
                  Ter a dádiva de sentir essa sensação foi o que de melhor aconteceu durante o "IV Campos Metal Fest". Me sentir o pai que olha aquela pessoinha nova que acaba de conhecer.Quase o mesmo sentimento da primeira visão através do vidro do berçário. Conhece-la de novo. Olhos arregalados para um mundo novo, cheio de cores, luzes e sons. Muito som.
                  Olhos arregalados, queixo caído e expressão de surpresa enquanto o cérebro se esforça em , entre a razão e a empolgação , colocar uma definição em português para tudo aquilo que a rodeia. 
                 Depois de tanto tempo, tempo esse recheado de desventuras, problemas, fins de mês e mês que vêm, lutas , decepções, pequenas vitorias, duras derrotas, sabores e dissabores, tivemos, por algumas horas, um futuro esquecido e  um passado apagado. Só havia o "ali". O "agora". O "esse momento".
                 Lembranças e anseios, por algumas horas se tornaram pura e tão somente o "hoje".
                A própria paternidade se amoleceu durante esse tempo, dando espaço para dois rockers trocando impressões e opiniões sobre música, acústica ambiente,sobre os que nos cercavam , tamanhos e higiene dos banheiros, altura do palco, camisetas, alargadores, botas,cabelos, piercings, enfim, bangers de diferentes idades descrevendo o redor dentro de suas concepções, elevando a paternidade para outro nível. Sem tabus. Sem preconceitos. Sem o velho "Eu falo, você escuta" , "comporte-se" ou "fora da mesa."
                  Era só um cara e uma guria que se conheciam a muito tempo. tempo esse que teima em tirar o brilho que um sempre viu no outro.
                  Nesse dia soubemos que um ombro acordaria dolorido e um velho e cansado baço estaria relocado por um cotovelo dentro da "roda". E rimos disso, para valorizar ainda mais a dor.
                  O ritual iria terminar cedo ou tarde.
                  Mas a certeza das reprises mentais por toda uma vida, nem ao menos nos deu espaço para um melancólico "gostinho de quero mais", porque essa noite iria durar para sempre e ninguém poderá se apossar ou tira-la de nós.
                  Nesse dia toda historia do metal, se metamorfoseou em um rolê de pai e filha.
                  Um só.

 
Talvez um dia eu me orgulhe menos desta guria... mas eu duvido.
Foto: Joe Barbara


Eis que são abertos os portais que nos levariam ao incrível mundo sonoro da pancadaria , fraturas filosóficas desopilações elétricas e de entrada , percebemos que nosso tão esperado mosh juntos, pai-e-filha style, tinha sido adiado por motivos de força maior.

Foto: Maria


      Se não de força maior, mais alta com certeza.

Foto: Maria

                     Não tinhamos visto nada de antemão, então deixamos pra conhecer a força da marreta somente na hora do impacto. Nós já conheciamos a Morfolk e eu já tinha visto a Manger Cadavre no Union Fest em São José dos Campos. Entao o score era de 2 bandas pra mim e 1 pra ela. De resto entramos nessa sem colete.

                      A primeira banda a se apresentar foi a Dymon´s , mineiros de Cachoeira de Minas, entraram com a pequena massa a frente ainda fria e não se preocuparam com o amanhã. Desfilaram trabalho, garra, peso, uma pitada de groove sem que se perdesse a velocidade da batida em prol do ritmo.
                       Thrash metal , que se não bastasse a competência da execução, tem o algo mais que me arrebenta o pescoço: letras em português !!!! 
                     Tem influencias de muita coisa boa do thrash e a cara do Dymon´s. Filhos inteligentes em uma boa escola. Só podia terminar em bate cabeça facil !!!! Ao perceber que Maria já se sentia à vontade no inicio da segunda musica para comentar sobre o som ( seu enfoque ficou nos riffs e bases e a inexistência de solos intermináveis e incompreensíveis o que pra ela é fundamental.) deixei-me levar pelo que ouvia e vi que estávamos em boas mãos !!! Set list seco, contato com publico 10 e cheio de opiniões ( nada do velho e simplista "Vcs querem rock?" daqueles que tem medo de  expressar opiniões e desagradar algum fã, saca?)
                       E fica meu obrigado pelo carinho com a minha alma,  a quem sem o menor estrelismo, aceitaram posar na foto abaixo demonstrando carinho e respeito com os novos fãs !!!
                      Trabalho impecável ao vivo, com ainda mais peso que em estúdio, mas sem abrir mão da qualidade do som. 

      Foto: Maria



Pedro Silva, Cesar Pereira, Maria, Eder Lelis e Mário Machado
Foto:
Iris Mota
Wesite: dymons.com.br/
Facebook: facebook.com/pages/Dymons



                       Depois da matança sonora do Dymon´s entrou o Chaos Synopsis. E ai , vale a máxima desse Farol. falo do que quero e quando quero. E a segunda banda realmente não me deu muito para que eu queira falar sobre. De antemão adianto que nem eu nem minha filha não achamos a banda ruim. Mas não nos impressionou. E sendo dono dessa bagaça aqui, dou um salto quântico, pulando essa banda que pouco ou nada alterou , na minha concepção o resultado da gig.
                         Mas vale ressaltar que durante a execução da mesma houveram baixas como um joelho de uma amiga que nem estava no bolão, a perna da mesa de merchan da Mmorfolk ( que também não participava do bolão, alias não participava de nada !), o a perna de minha filha na ida e ombro na volta e meu baço que encontrou nova morada dentro de minhas vísceras!!! enfim , o bom e velho cicle pit fazendo suas costumeiras vitimas !!!


                          Finalizado a contagem de ossos e assegurando que tudo o que estivesse intacto permanecesse intacto, nos posicionamos para aguardar os inícios do trabalho da Manger Cadavre. Abrindo com uma instrumental, me vi ao lado de uma adolescente já ansiosa em saber quais eram as armas que a guria da banda tinha para descarregar. 
                          Eu a vi logo apos alguns segundos da segunda musica de olhos arregaladaços. De queixo caído. De face estupefata enquanto balbuciava " É play back !!! Só pode ser play back !!!!" Os vocais que lembravam a ultima chamada para o Juízo Final a fizeram não tirar os olhos na guria que vociferava insultos ao sistema e que , ao ser magicamente despossuída entre uma musica e outra, falava com o publico com irreconhecível meiguice. Tinha um quê de "Who , the fuck, are Angela Gossow?????".
                          E a Manger Cadavre ainda tinha um baixista com sonhos suicidas que saltava num mezanino nada propicio ao esporte!!! Um batera rasteiro , veloz, com vasto repertorio de passagens ligeiras , necessárias pra acompanhar um guitarrista realmente veloz mas com serenidade budista. Tem crossover dentro de um cesto cheio de um grind esquizofrênico com nome de crust. O som é perfeito para aquela festa punk com a moçada. E é desse jeito que a banda se comporta. Eles nos permitem participar da festa deles. Uma banda que se diverte tocando não dá para ficar de fora de nenhum evento que queira ser levado a sério. 
Nada pode pagar isso.

                          E mais um obrigado pessoal pelo incrível bate papo pós show , onde , além de aceitarem posar para uma foto com minha guria, plantaram a sementinha do "Do it yourself!" nela. Ela viu uma turma se divertindo lá no palco e essa é a melhor das influencias que ela vai levar quando resolver subir em um também !!!

Foto:Maria

    Marcelo Kruszynsk, Jonas Godói,  Maria , Nata de Lima e Marcelo Augusto
   Foto: Iris Mota

Website:MangerCadavre.blogspot.com

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                       O bate papo com a Manger Cadavre só animou mais um dos momentos mais bacanas da noite. A muito eu e Maria falavamos sobre a Morfolk e sobre como seria em "World Wide War" o primeiro mosh ( ou stage dive como queiram) da historia dela. E seria duplo. Pai e filha juntos.  Mas como citado no inicio do post, esse sonho ficou pra outro gig, por motivo de forças maiores. kkkkkk  Pensa num palco alto. Demais para uma primeira vez. E pra ultima também.


                       A Morfolk sempre irá impressionar antigos fãs assim como novos expectadores devido o profissionalismo . Não só no Vale do Paraíba. Em 2013 foram vários os passeios pelo estado de São Paulo, assim como bem sucedidos em apresentação em Minas Gerais. Desde a primeira metade dos 90 já é sabido da correria da banda.
                        Mas o que temos disponível hoje, principalmente ao vivo, é um Morfolk concentrado, afiado, cúmplices de uma apresentação forte, intensa, priorizando o contato com a platéia e a qualidade das composições. É death metal ! E o é com maestria. Mas com mudanças , passagens, riffs, solos sincronizados enfim, o velho death ainda melhor. Mais rápido. Mais brutal. Mais trabalhado. O Morfolk que até o Morfolk tinha medo de ser.
                        As chances da Morfolk ficar presa ao cenário do Vale do Paraíba vão aos poucos se esgotando. Dois caras com uma escola death fortíssima, um vocalista versátil que passeia bem por entre as escolas das duas ultimas aquisições às fileiras da banda que são um guitarrista com forte influencia do thrash metal e um batera que passeia pelo grincore. Diferentes ( nem tanto , eu sei) vertentes que não criaram cisão e sim coesão. O trabalho apresentado, principalmente ao vivo, será em muito pouco tempo necessário para suprir as necessidades metálicas em muitos outros lugares, o que será ótimo ao cenário local pois muitos olhos se voltarão para região e a janela aberta será portal para os competentes e seguros de seu som.
                           Enquanto se preparavam para os acordes da ultima pedrada e agradeciam aos realizadores do projeto, ainda encontraram tempo para agradecer minha guria ao vivo , ao passo que a mesma enrubescia de olhos mareados, por timidez talvez, mas um pouco por saber que trilhava o bom caminho. Ouvir o nome de minha filha no meio de um show de uma banda desse cacife foi uma realização quase egoísta, mas também com um sentimento de passagem de tocha.
OBRIGADO A TODOS DA MORFOLK PELO CARINHO COM ESSA QUE É MINHA FORÇA MOTRIZ. 


Foto: Maria

Walter Pitucha, Reinaldo Tio, Daniel Sanches, Gabriel Grisolia, Maria e Ryan Roskowinski
Website:myspace.com/morfolk
Facebook:facebook.com/Morfolk


                 E, nas palavras do Chicó de Suassuna :" ...só sei que foi assim !"
                Terminava uma das mais perfeitas noites de minha historias. Derrotas e vitorias ficaram sem razão ao ver minha filha sendo citada em agradecimento em plena apresentação. A tocha não poderia ter sido passada de forma mais bela e honrosa. não sei quais serão os passos dela no futuro. Não sei se elá verá, a partir de agora, as minhas historias como algo legal, com aqueles olhos de fascínio e atenção milimétrica a cada palavra. Graças a vocês da Dymon´s, Manger Cadavre, Morfolk e os carinhas que acertaram o ombro dela, agora ela tem já suas próprias historias, suas próprias impressões e conclusões. 
                 Vocês escreveram um capitulo maravilhoso num livro que ainda tem milhares de paginas em branco, e que terão esse capitulo sempre como um norte para as paginas que se seguirão.

                  Uma noite para sempre.

Joe "The Unabomber " Barbara


2 comentários:

Natália de Lima disse...

As impressões de um pai que levou sua filha pela primeira vez em um show fechado de metal e hardcore, me fizeram sorrir ao ler cada palavra. É na simplicidade que a gente encontra o que realmente vale a pena levar dessa vida! Muito obrigada Joe Barbara e Norman M Vivian. Vocês não tem ideia de como é importante para uma banda receber um feedback desses!

Natália de Lima disse...
Este comentário foi removido pelo autor.